MOBILIDADE

A mobilidade liga pessoas, culturas, cidades, países e continentes. Os problemas relacionados com a mobilidade colocam-se, de forma particularmente acentuada, nas cidades, onde o espaço público foi muitas vezes desenhado a pensar no automóvel3. Várias projeções apontam que, até 2030, 60% da população mundial viverá nas cidades, acima dos 50% atualmente registados, e de acordo com as Nações Unidas, deverá aumentar para cerca de dois terços – mais de 6 mil milhões de pessoas – até 20505. Prevendo-se também que a frota atual de 1400 milhões de carros duplique1. As cidades estão sob uma pressão nunca sentida, devido ao aumento da população, do tráfego e das alterações climáticas.

Em Portugal, mais de 40% da população reside nas cidades, onde mais de 75% das deslocações são realizadas em transporte individual, apenas com um ocupante e mais de metade percorrem uma distância de 3 a 5 quilómetros9

A descarbonização da sociedade e a consequente independência de combustíveis fósseis, até 2050, são objetivos ambiciosos que Portugal está determinado a cumprir. No que respeita aos transportes, verifica-se que este setor representa cerca de 25% das emissões de GEE, aliada à pegada do automóvel nas cidades, com enorme uso de espaço, problemas de poluição do ar e ruído, entre outros. 

Uma efetiva estratégia de descarbonização exige uma mobilização da sociedade conjuntamente com a implementação de medidas adequadas ao cumprimento dos objetivos traçados, onde o papel das cidades neste desafio é enorme.

As cidades beneficiariam, a vários níveis e direta ou indiretamente, com medidas de redução do tráfego automóvel, em complementaridade com a promoção de outras formas de transporte, bem como medidas de redução de ruído e poluição. Em última análise, a questão não é apenas sobre carros, aviões, estradas, navios ou combustíveis – os diferentes componentes do sistema de transporte – mas sobre a necessidade de transportar pessoas e mercadorias de um lugar para outro de forma fácil, segura e eficiente. Devemos construir um sistema de ‘mobilidade’ limpo, inteligente e abrangente que atenda às necessidades de mobilidade, oferecendo um serviço adaptado aos requisitos dos utilizadores5.

MOBILIDADE SUSTENTÁVEL

A mobilidade sustentável é aquela em cujo meio de transporte se consome menos energia e, em simultâneo, se produz menos poluição por quilómetro percorrido. A definição corresponde a um modelo de organização do transporte humano com o mínimo impacte ambiental.

Uma outra definição de mobilidade sustentável é usada pelo Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável (BCSD), como parte do seu Projeto de Mobilidade 2030: mobilidade que satisfaça as necessidades da sociedade circular livremente, ter acesso, comunicar, negociar e estabelecer relações sem sacrificar outros recursos ecológicos ou humanos essenciais10.

Uma mobilidade mais sustentável surge da necessidade de reduzir os impactes negativos no ambiente e na saúde que resultam da mobilidade atual e que são proporcionais ao aumento da densidade populacional. 

A Greenpeace apresentou em setembro (2020) o seu relatório europeu ‘Transformar o Transporte’, onde analisa as medidas necessárias para cumprir os objetivos climáticos em todas as áreas da mobilidade (urbana e interurbana, de passageiros e mercadorias) e para todos os modos: rodoviário, ferroviário, marítimo e aéreo.

Dentre o conjunto de medidas exigidas pela Greenpeace, priorizam-se aquelas que reduzem a necessidade de deslocamento, como o teletrabalho e o comércio local. Também são propostas políticas para encorajar a mudança para modos de transporte mais sustentáveis, como os transportes públicos, e para limitar os voos curtos a favor do comboio. Por fim, são analisadas as melhorias tecnológicas no transporte, como a eletrificação do automóvel e a necessidade de encerrar a comercialização de veículos a diesel e gasolina antes de 202811.

A cadeia da mobilidade sustentável tem uma receita: a “transferência do carro para o autocarro e, se possível, do autocarro para as bicicletas e para os peões”. É isso, precisamente, que cidades de todo o mundo estão já a fazer, para reduzir os níveis de poluição do ar e possibilitar, em segurança, que os cidadãos optem por modos de transporte não poluentes – como são o andar a pé e de bicicleta, e que melhoram a saúde12.

Em Portugal, é necessário encontrar alternativa à utilização do transporte individual motorizado, sendo cada vez mais relevante a transferência modal para os modos ativos e o transporte coletivo e, sempre que possível, a complementaridade com meios suaves de transporte (como a bicicleta), estes últimos associados a uma mudança do estilo de vida com ganhos significativos também para a condição física e melhoria global da saúde individual. Para os utilizadores que não acompanhem esta mudança comportamental, releva também a progressiva substituição dos veículos de combustão interna por veículos movidos com energias alternativas, como a eletricidade. É essencial também, promover uma transição rápida para a partilha de veículos, por oposição à posse de veículos privados4

Fonte: Urban Hub – Pessoas dando forma às cidades, 2020


1 – Mobilidade, muito mais que uma necessidade básica

3 – Estratégia Nacional para a Mobilidade Ativa – ENMA 2020-2030

4 – Mobilidade Sustentável – ENEA 2020

5 – EEA SIGNALS 2016 – Towards clean and smart mobility

9 – Planos de Mobilidade Urbana Sustentável devem ser obrigatórios defende a Zero

10 – Mobilidade 2030: Vencendo os desafios da sustentabilidade – BCSD Portugal

11 – Usar o próprio carro para evitar a COVID-19 é uma “ideia muito má”, adverte a Greenpeace

12 – Mobilidade: Depois da Pandemia, a Quem Pertence a Cidade?